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sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Progressista fascista

Interessante como a esquerda mal entende (e se apropria) de certos termos para incorporá-los nas suas rezas seja como auto-elogio ou como anátema dos adversários da hora.

Progressista é um termo surgido com o Iluminismo e que foi incorporado ao ideário positivista que lhe sucedeu e influenciou seu contemporâneo marxismo via Hegel. Significava o progresso da humanidade pela via da racionalidade nas ciências, na tecnologia e nas instituições (positivismo). Também significava o progresso dialético da história rumo ao espírito puro (Hegel) ou à sociedade sem classes (Marx). Ou seja, era uma bandeira tanto liberal, como social-democrata, como marxista. Hoje significa ser de esquerda e não se sabe muito bem o que isso significa. Eu, por exemplo, sou considerado por uns de esquerda e por outros de direita.

Outro termo é fascista, uma ideologia comunitarista, totalitária e nacionalista, que se opõe em todos os seus dogmas ao liberalismo e só no quesito nacionalismo se opõe ao marxismo. Entretanto, na América Latina colonizada (assim como nas nacionalidades europeias do século XIX submetidas aos impérios da época) o socialismo adquire um viés nacionalista, que o aproxima do ideário fascista. O mais gozado é que a social-democracia, que naquela época era esquerda e aliada, aqui é considerada inimiga.

Ou seja, a política não é feita de ideias, mas de simpatias e antipatias pessoais. Eu não defendo pessoas e as critico quando não se comportam de acordo com o que acredito ser certo, quer se digam de esquerda ou de direita.

Infelizmente, a Internet prolifera a replicação de um tipo de opinião acrítica, uma simples repetição de mantras, onde não há questionamento nem exame de ideias, mas apenas expressão de sentimentos bons ou maus na forma de loas e críticas a pessoas. O pensamento raramente é original (se é que pode ser) nessa reciclagem constante. Nesse monte de lixo intelectual reciclado na Internet se encontram também pepitas de ouro e pedras preciosas. Ao invés de navegar na web deveríamos minerar. E cabe também peneirar.

domingo, 20 de maio de 2007

Radical de Centro *

As pessoas se declaram de esquerda ou direita por afinidade. Por afinidade de interesses ou afetiva, o posicionamento político é mais emocional do que racional: um perfilamento simpático – ou uma rejeição antipática – a pessoas mais do que a idéias. Uma variante diz respeito ao poder: ser simpático ao poder é de direita, contestá-lo é de esquerda.

Falar esquerda e direita condiciona linearidade em uma única dimensão. O senso comum considera o liberal à esquerda do conservador e à direita do socialista, e o anarquista ainda mais à esquerda. Entretanto, o pensamento conservador tem afinidades com o socialista pela ênfase na ordem e na segurança, enquanto o pensamento liberal converge com o anarquista na valorização da liberdade individual como princípio máximo e na desconfiança em relação ao Estado.

Entendo que a escolha entre esquerda e direita se dá em vários eixos, que representam conceitos opostos. Para isso desenvolvi um ideologímetro que marca a posição intermediária entre estes conceitos. Marque no ideologímetro abaixo onde você se situa:

Comunidade.. _____________!_____________ Indivíduo

Igualdade... _____________!_____________ Liberdade

Segurança... _____________!_____________ Risco

Planificação _____________!_____________ Competição

Uniformidade _____________!_____________ Diversidade


Estabilidade _____________!_____________ Mudança

Natureza.... _____________!_____________ Tecnologia

Ideológica e politicamente me declaro um radical de centro com tendências para a direita. Muitos pensam que é blague, pois acham que radicalismo pressupõe extremismo. Mas, radical é quem vai à raiz do problema, com disposição e disciplina para refletir e analisar todos os lados da questão, suspendendo o julgamento passional interessado.

O "radical" extremado, ao contrário, adota uma posição afetiva, baseada em interesses e não em análise. O "radical" é do contra, se opõe ao que considera diferente, por antipatia baseada mais em sentimento e interesse do que em raciocínio. O "radical" não tem lógica, tem convicção. Certeza visceral, não cerebral. A raiz do conflito político está na paixão cega de quem defende o seu lado, no qual supõe toda a virtude, e joga no outro todo o vício. Isso se chama maniqueísmo. Esta paixão é veemente e o "radical" é veemente na defesa do seu interesse, sempre racionalizado como interesse comum ou verdade definitiva.

Aliás, a veemência é a única característica do "radical" extremista que procuro manter. Defendo veementemente a liberdade de idéias, o pensamento livre e o mais desinteressado possível, o direito que todos têm de defender interesses respeitando o direito dos outros de fazer o mesmo.

O interesse individual deve se subordinar ao interesse coletivo. Mas não existe “o” interesse coletivo, “o” bem comum. O interesse coletivo surge da negociação dos interesses individuais. Não se trata de defender fins, mas sim de assegurar os meios para que essa negociação se efetue. A isso se chama estado de direito.

Platão errou ao jogar a ética para um plano metafísico afirmando a existência de um Bem absoluto e inventando a praga do idealismo. Ética não é coisa de deuses desapegados, é coisa de homens interessados. Todos têm interesses próprios e a sua defesa é legítima. Não é uma questão de fins, danem-se os fins. Os meios é que são éticos. Se o mal existe, ele se chama violência. O que há de terrível na sentença de Maquiavel de que os fins justificam os meios é que ela sanciona a violência.

O uso da força permite ao forte impor suas idéias e manter o poder. Pode-se pedir ao mais forte que não use a sua força? Sim, mas isso é antinatural. O forte só deixará de usar a sua força por temer a união dos fracos. Ou por aceitar o imperativo categórico de Kant. Seja por medo ou pudor, é na repressão do uso da força pelo forte que se baseia o estado de direito.

Mas isso pode facilmente descambar para a ditadura dos fracos – a ditadura do rebanho que, de fato, é sempre uma ditadura de pastores disfarçada. Foi essa a revolução dos séculos XIX e XX, comandada por Nietzsche e Freud: a reabilitação da potência do indivíduo, o uso consciente das forças instintivas do indivíduo como critério maior de verdade e valor.

Para o socialista todos os homens são iguais, mas, quando estão no poder, uns acabam sendo mais iguais do que outros. Os liberais defendem a livre circulação de pessoas e mercadorias, mas de preferência num sentido só – do centro (de poder) para a periferia. Socialismo e liberalismo são utopias – coisas de idealistas. Idealistas querem o poder para colocar em prática suas idéias, o que é um interesse próprio. Defender o interesse próprio é legítimo, desde que se reconheça ao outro o mesmo direito. Por isso, simpatizo um pouco mais com os liberais, embora aqui também se encontrem convictos. O idealista acha que sabe o que é melhor para os outros, pois está do lado da verdade absoluta. Eu tenho muito receio disso. Aliás, me oponho radicalmente a isso.

* Este texto é uma revisão de artigo originalmente publicado no livro "O Entregador de Sonhos"