sábado, 22 de outubro de 2016

Ideologia

Há duas concepções de ideologia: a neutra e a crítica. Na concepção neutra do senso comum ideologia é sinônimo de ideário: conjunto de ideias, doutrinas ou visões de mundo de um indivíduo ou de um grupo, que orienta suas ações sociais e políticas. A concepção crítica surge com a história do termo, originalmente proposto pelo conde Destutt De Tracy (1754-1836) para descrever uma ciência positiva da formação das ideias a partir das percepções sensoriais, uma tentativa de buscar as bases psicológicas da epistemologia. Napoleão foi o primeiro a usar o termo criticamente para caracterizar os “ideólogos” seguidores de De Tracy como “deformadores da realidade”. Este foi o sentido geral que Marx deu ao termo, como uma superestrutura das relações de poder econômico, cuja função é justificar as relações de poder estabelecidas: “ferramentas simbólicas voltadas à criação e/ou à manutenção de relações de dominação".

De acordo com a noção neutra entendo que cada um tem a sua ideologia: seu conjunto de ideias sobre o mundo – uma mistura de juízos de fato e de valor – que orientam suas decisões. Entretanto, justamente por incorporarem juízos de valor e terem efeitos práticos bons ou maus para o agente, ideias não são completamente neutras ou desprovidas de interesse e, sim, servem a propósitos ou motivos conscientes ou não do pensante. A grande parte dos motivos pré ou inconscientes são inculcados no agente pela sua educação e, sim, fazem parte da superestrutura cultural que sustenta as relações sociais e políticas do seu grupo social. Entendo assim que qualquer ideologia está carregada de voluntarismo idealista: a vontade de conformar o mundo a uma ordem de valores considerada ideal por quem a formula. E é justamente por serem idealistas na ordem dos valores que as ideologias deixam de ser realistas na ordem dos fatos. Entretanto, existem fatos resultantes de cadeias de causas e consequências determinadas que escapam às possibilidades de influência da vontade. Neste sentido, a decisão mais correta é a que se conforma a essa realidade determinística e não a que tenta inutilmente alterá-la. Mas ideias são produtos humanos e culturais, onde o interesse e a razão lógica são determinantes e que produzem também cadeias de causas e consequências, que dependem da vontade e onde a liberdade e a autonomia encontram seu espaço. Aqui, a conformidade e a aceitação tácita é que incorrem em erro de princípio.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Paradoxos do RH

O desenvolvimento dos Recursos Humanos nas organizações enfrenta alguns paradoxos. O primeiro paradoxo é que, em geral, as empresas declaram que as pessoas são o seu recurso mais precioso. Entretanto, as áreas de Recursos Humanos raramente fazem parte dos escalões mais altos de direção. Talvez porque sendo o lucro a finalidade da empresa, as pessoas são apenas instrumentos funcionais (funcionários) dos processos de produção de riqueza, enquanto as áreas de RH, dada sua vertente psicológica, podem querer priorizar o desenvolvimento das pessoas enquanto tais e não apenas como funcionários. Mas pessoas mais maduras e mais felizes podem sim produzir mais. Então, as empresas investem no desenvolvimento das pessoas sim.

Um segundo paradoxo diz respeito à avaliação do resultado do investimento no desenvolvimento das pessoas. Desenvolvimento é sinônimo de aprendizado, e o aprendizado de habilidades comportamentais vai além do treinamento em habilidades técnicas. Normalmente, as empresas investem no treinamento e no desenvolvimento pessoal de seus colaboradores, mas só avaliam o custo do investimento e a satisfação dos participantes. Assim, muitas vezes, pela falta de um instrumento que possa medir o seu retorno, o treinamento é encarado como um benefício a ser agregado ao custo de pessoal e não como um investimento que traga retorno.
O instrumento tradicional de avaliação de reação em um treinamento mede apenas a satisfação imediata dos participantes, fortemente influenciada pelas emoções suscitadas pelo processo. Assim, um evento do tipo “show” tende a ter uma melhor avaliação do que um processo mais longo de aprendizado autogerenciado de ensino à distância (EAD), mesmo que o seu resultado final em termos de mudança comportamental seja comparativamente menor.

A PowerSelf desenvolveu um método de avaliação dos resultados efetivos do aprendizado através de indicadores. Em dois anos de aplicação e aprimoramento constante, os indicadores orientaram a consolidação de nossa Trilha de Aprendizado, constituída por uma série de serviços antes e depois do curso presencial. São três indicadores: Aproveitamento, Ganho e Responsividade. O Aproveitamento de uma turma é o percentual de participantes com mudanças efetivas reportadas por eles e/ou seus apoiadores. O Ganho é uma avaliação quantitativa da melhora percebida com a mudança comportamental. Este ganho percebido é uma avaliação subjetiva sim, como de resto toda avaliação o é, mas sem dúvida, é uma medida da melhoria da produtividade pessoal. A Responsividade mede o engajamento do participante no processo de aprendizado, funcionando como uma avaliação de desempenho progressiva.

Aproveitamento é o indicador mais importante da efetividade de um treinamento. Buscando melhorá-lo aprimoramos o processo da Trilha. De fato, de uma média de 35% no início de 2014, chegamos a 80% em meados de 2016. Isto é, 80% dos participantes da Trilha percebem ganhos significativos, ao redor de 50%, no seu desempenho. A Responsividade, implantada somente no fim de 2015, tem variado entre 60% e 70%. O indicador de Ganho permite que se tenha uma medida do retorno do investimento, supondo que o Ganho se dá sobre a Produtividade de Pessoal, dada pela relação entre margem bruta e massa salarial. No cálculo, consideramos apenas os participantes com ganhos relatados. Caso a empresa não acompanhe o indicador de produtividade de pessoal, supomos que a produtividade dos participantes antes do processo de aprendizado fosse de 2,5 vezes o seu salário – uma produtividade baixa, já que só o custo de um trabalhador no Brasil é de 2 vezes o seu salário. Quanto maior a produtividade anterior, mais rapidamente retornaria o investimento, pois se está medindo o ganho em relação a ela. 

O aumento de produtividade das pessoas pode não se traduzir num retorno financeiro imediato para a empresa, pois este depende de muitos outros fatores e também porque as pessoas que participam do processo podem representar uma parcela pequena do total de colaboradores, mas, de qualquer maneira, trabalhar consistentemente com indicadores que traduzam o resultado residual efetivo do treinamento é uma forma muito melhor de avaliar o investimento em pessoal do que a tradicional avaliação de reação.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Progressista fascista

Interessante como a esquerda mal entende (e se apropria) de certos termos para incorporá-los nas suas rezas seja como auto-elogio ou como anátema dos adversários da hora.

Progressista é um termo surgido com o Iluminismo e que foi incorporado ao ideário positivista que lhe sucedeu e influenciou seu contemporâneo marxismo via Hegel. Significava o progresso da humanidade pela via da racionalidade nas ciências, na tecnologia e nas instituições (positivismo). Também significava o progresso dialético da história rumo ao espírito puro (Hegel) ou à sociedade sem classes (Marx). Ou seja, era uma bandeira tanto liberal, como social-democrata, como marxista. Hoje significa ser de esquerda e não se sabe muito bem o que isso significa. Eu, por exemplo, sou considerado por uns de esquerda e por outros de direita.

Outro termo é fascista, uma ideologia comunitarista, totalitária e nacionalista, que se opõe em todos os seus dogmas ao liberalismo e só no quesito nacionalismo se opõe ao marxismo. Entretanto, na América Latina colonizada (assim como nas nacionalidades europeias do século XIX submetidas aos impérios da época) o socialismo adquire um viés nacionalista, que o aproxima do ideário fascista. O mais gozado é que a social-democracia, que naquela época era esquerda e aliada, aqui é considerada inimiga.

Ou seja, a política não é feita de ideias, mas de simpatias e antipatias pessoais. Eu não defendo pessoas e as critico quando não se comportam de acordo com o que acredito ser certo, quer se digam de esquerda ou de direita.

Infelizmente, a Internet prolifera a replicação de um tipo de opinião acrítica, uma simples repetição de mantras, onde não há questionamento nem exame de ideias, mas apenas expressão de sentimentos bons ou maus na forma de loas e críticas a pessoas. O pensamento raramente é original (se é que pode ser) nessa reciclagem constante. Nesse monte de lixo intelectual reciclado na Internet se encontram também pepitas de ouro e pedras preciosas. Ao invés de navegar na web deveríamos minerar. E cabe também peneirar.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Administração do Tempo

O tema da Gestão do Tempo é tratado por duas “escolas” de formas assemelhadas, mas distintas. A primeira é a Escola da Administração[1] iniciada nos anos 60 e que foca no tempo de trabalho ensinando técnicas e ferramentas para lidar com os “ladrões de tempo”[2] que afastam o profissional das tarefas típicas da rotina do seu cargo. A segunda vertente é a Escola da Ética[3], à qual me filio, que foca na vida como um todo ensinando boas práticas para uma vida mais feliz e equilibrada. Essa escola tem raízes na filosofia e pode-se dizer que nasceu com Sócrates. Além de mais antiga, a Escola da Ética é mais abrangente e inclui os preceitos da Escola da Administração, na medida em que o trabalho faz parte da vida.

A grande diferença entre as duas está na disciplina da Reflexão, a mais básica das Três Disciplinas da abordagem que desenvolvi para a prática da boa “gestão do tempo”. As aspas se justificam, pois não administramos o tempo, mas sim nossas decisões sobre o que fazer.

Uma coisa é decidir o “que fazer” a cada instante. Aqui estamos no âmbito da administração: o uso de técnicas para melhorar eficiência, qualidade e eficácia. As técnicas da eficiência são instrumentais: aprimoram os meios, mas não questionam os fins a que se submetem, pois no plano do “que fazer” supõe-se que os objetivos são dados ou conhecidos.

Podemos viver sem questionamento, deixando a vida nos levar, cumprindo a rotina como destino, ao sabor do acaso ou sob a pressão das circunstâncias. Outra coisa é decidir “como viver”. Aí transcendemos a economia e entramos na filosofia – no terreno das dúvidas antes das certezas. Sim, pois a realização pessoal não é uma meta, ou, se o for, é essencialmente inalcançável. Realização é um processo e não um estado – é a forma de percorrer o caminho da vida e a construção de si mesmo ao longo do percurso. Isso pode ser feito com método, seguindo uma “técnica” milenar: a própria filosofia da ação – a ética. Isso resume tudo: administrar bem o tempo é viver bem e para isso há uma única fórmula: reagir menos automaticamente para agir mais conscientemente. Aí toda a dificuldade. O natural e fácil é a inação ou a reação condicionada, supondo que se sabe o que se quer. A ação consciente é um aprendizado, uma disciplina – justamente porque não é natural. Por isso é preciso aprender a administrar a si mesmo (e não o tempo)  – aprender a viver bem, desenvolvendo hábitos e processos de decisão mais racionais.




[1] Creio que é essa corrente que Covey chamou de Escola da Eficiência.
[2] Reuniões, falta de planejamento, interrupções, procrastinação, má delegação, desorganização da informação e do espaço, gestão de projetos.
[3] Covey usa o termo Escola da Eficácia, mas entendo que o seu enfoque ainda é instrumental, supondo que os fins são dados de maneira inquestionável.

sábado, 30 de julho de 2016

Conflações

 A filosofia usa palavras para falar... do significado das palavras. E cria palavras para explicar... novos significados. Uma delas é conflação: a falácia lógica de tratar conceitos distintos como se fossem um. E conflacionamos muito!

Por exemplo, o termo ‘poder’ conflaciona o ‘poder de’ fazer algo (capacidade, potência, agência) com o ‘poder sobre’ outras pessoas (influência, comando, domínio). À primeira acepção subjaz a ideia de cooperação, a segunda evoca conflito – nada mais distinto.

Outro exemplo: ‘verdade’. Há pelo menos quatro significados de verdade. Um deles é aletheia - a revelação da verdade oculta. No platonismo a verdade está num mundo ideal do qual a realidade é uma cópia imperfeita. A busca desta verdade, que se revela por trás das aparências da realidade, é o moto da pesquisa científica. Conhecimento (episteme) é a crença que corresponde a esta verdade e que justifica essa correspondência, sustentando suas razões pela argumentação lógica. Conhecimento não é mera opinião (doxa), essa crença baseada na intuição das aparências e que se justifica apenas pelo hábito.

A palavra grega parresia enuncia outro conceito de verdade: a verdade do discurso ou franqueza. O dizer a (sua) verdade a qualquer custo e sem outra finalidade é uma virtude, um dever e uma capacidade - quase uma técnica. Virtude da franqueza, da transparência, honestidade de quem nada esconde. Dever de respeitar a verdade que se justifica e mudar de opinião. Capacidade de convencer pela mera enunciação da verdade, sem usar recursos da retórica.

A palavra latina veritas traz uma terceira acepção: a verdade do registro – rigor e exatidão. Veritas é a veracidade do registro da realidade, que observa e descreve; que infere, não prescreve, não julga nem avalia, não ordena nem condena. O registro é verdadeiro quando exato: não manipulado, nem distorcido. E se verifica verdadeiro se confirmado pela experiência. Esta verdade também é cultivada pela ciência objetiva.

A quarta noção de verdade é dada pela palavra hebraica emunah: a verdade da fé ou confiabilidade. É a crença na promessa, fidelidade à palavra divina e à palavra empenhada. Convicção inata, independente da razão.

Onde então está a verdade do poder? Que confusão de conflações!

sábado, 23 de julho de 2016

Desafio aos gaúchos

Quem pensa o presente sobrevive. Quem pensa o futuro cria e produz. Os setores que produzem e criam bens materiais e culturais são os maiores responsáveis pela nossa situação daqui a 20 anos.
A pesquisa é uma das, senão "a" atividade mais portadora de futuro. A FAPERGS propõe que os setores produtivos e criativos da sociedade gaúcha parem um pouco de pensar apenas em termos de sobrevivência e assumam sua responsabilidade pelo futuro, discutindo prioridades para a pesquisa no Estado.
A proposta é eleger 10 setores prioritários para fomento. Espera-se que a própria discussão alavanque o interesse por estes setores. O pontapé inicial foi dado pelo Conselho Superior na minuta de um documento que elenca 12 setores e 8 princípios orientadores da discussão. Esta minuta está completamente aberta a sugestões de reformulação até o dia 30/10/16 e, necessariamente, precisará cortar 2 setores da lista, pois priorizar significa discriminar.

A opinião que critica o que foi feito é reação fácil. A opinião que se responsabiliza por criar é iniciativa difícil. A proposta da FAPERGS é uma oportunidade e um desafio. Um desafio aos gaúchos que pensam o futuro e uma oportunidade de moldá-lo para aqueles que o viverão. Somos capazes de iniciativa ou só temos tempo para lamento e crítica?

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Silencie seu smartphone para ser mais feliz

Em estudo recentemente apresentado na edição de 2016 da Conferência “Computer-Human Interaction”, Kostadin Kushlev, Jason Proulx e Elizabeth Dunn conduziram um experimento em duas etapas: Por uma semana, participantes (uma amostra da população em geral) foram instruídos a maximizar interrupções telefônicas ligando todos os alertas de notificação de seus smartphones, mantendo-os à mão e à vista. Na semana seguinte, os participantes minimizaram interrupções telefônicas desligando os alertas e mantendo seus smartphones fora da vista. Os resultados: “Participantes reportaram níveis bem mais altos de desatenção e hiperatividade quando os alertas estavam ligados, com diminuição tanto de sua produtividade como do bem estar psicológico”. A ligação inversa entre distração e produtividade é claramente compreendida e largamente demonstrada. Mas por que o mal estar psicológico? Matthew Killingsworth e Daniel Gilbert publicaram na Science em 2010 o artigo “Uma Mente Distraída é uma Mente Infelizrelatando uma pesquisa feita em cima de um app desenvolvido para amostrar os pensamentos, sentimentos e ações de um grande grupo de sujeitos e descobriram que: (1) as pessoas pensam sobre o que não está acontecendo tanto quanto sobre o que está acontecendo com elas e (2) que isso as torna infelizes. Segue um trecho do artigo. “Diferentemente de outros animais, os seres humanos empregam muito tempo pensando sobre o que não está acontecendo ao seu redor, contemplando eventos passados, ou que possam acontecer no futuro, ou que nunca irão acontecer. De fato “pensamento independente de estímulos” ou “divagação mental” parece ser o modo de operação padrão da mente. Embora seja um considerável marco evolucionário, que permite que as pessoas aprendam, raciocinem e planejem, isso pode ter um custo emocional. Muitas filosofias e religiões tradicionais ensinam que a felicidade é encontrada ao se viver o momento presente, e os praticantes são treinados para resistir à divagação permanecendo no “aqui e agora”. Essas tradições sugerem que uma mente distraída é uma mente infeliz. Estarão elas certas?” O app desenvolvido colocava três questões de escolha rápida em momentos aleatórios: “Como você se sente?”, “O que está fazendo?” e “Você está pensando em outra coisa que não o que está fazendo?”. As conclusões da pesquisa apontaram que: (1) a distração ocorreu em 46,9% das amostras e em pelo menos 30% daquelas durante uma atividade (exceto durante o ato sexual); (2) as pessoas se sentem menos felizes quando divagando do que quando focadas. Os autores apontaram que “embora se saiba que estados de espírito negativos causem distração e divagação mental, nossas análises temporais sugerem fortemente que a distração em nossa amostragem foi geralmente a causa e não apenas a consequência da infelicidade.” Embora a evolução nos tenha preparado para divagar, nossos dispositivos tecnológicos magnificam as consequências positivas e negativas desta capacidade. Você será mais feliz se focar no que está fazendo – e isso significa desligar as notificações de seus aparelhos. Pelo menos algumas. Pelo menos parte do tempo.

domingo, 15 de maio de 2016

Parresía - virtude ou vício?

Aprendi de Foucault[1] o conceito grego de parresía: o dizer a verdade a qualquer custo e sem outra finalidade. Não é demonstração à maneira da lógica e seus raciocínios válidos. Não quer persuadir à maneira da retórica e suas figuras de linguagem, embora Quintiliano a aponte como a figura de linguagem que consiste em não usar figura alguma. Não quer necessariamente ensinar à maneira da pedagogia e também não é uma técnica da arte da discussão ou erística.

Pergunto-me se a parresía é uma virtude como quer a interpretação tradicional e corrente[2] que a define como uma forma de coragem – de enfretamento do medo, no caso, de dizer a verdade. Será que esse apreço pela verdade acima da própria vida é racional? A confissão, a delação e a denúncia verdadeiras sem respeito pela vida alheia podem ser sempre consideradas virtudes? Ou estará esse “amor” pela verdade mais para o lado de um vício ou de uma compulsão?

A questão subjacente é se a verdade é um fim em si mesma ou um atributo do conhecimento com um valor meramente instrumental para a melhor decisão. Isso equivale a colocar a epistemologia a serviço da ética, o que, na minha humilde opinião é plenamente justificável e verdadeiro. Pronto! Pratiquei a parresía!




[1] Foucault, Michel. O Governo de Si e dos Outros. Martins Fontes, São Paulo, 2010. Trad. Eduardo Brandão.
[2] http://www.cartaforense.com.br/conteudo/colunas/parresia---a-coragem-de-dizer-a-verdade/6841

sexta-feira, 25 de março de 2016

Radical de Centro

Resolvi reeditar um artigo que escrevi em 2005 para o Baguete acrescentando uma linha ao meu ideologímetro. Segue:

As pessoas se declaram de esquerda ou direita, mais por afinidade do que por qualquer outra coisa. Seja por afinidade de interesses ou afetiva, o posicionamento político é muito mais emocional do que racional: um perfilamento simpático – ou uma rejeição antipática – a pessoas, mais do que a ideias. Uma variante deste posicionamento diz respeito ao poder. Quem defende quem está no poder é de direita, quem o contesta é de esquerda.

Falar em esquerda e direita condiciona um pensamento linear em uma única dimensão. Em relação a ideias, o conceito de esquerda e direita é bem mais complexo do que quer o senso comum. Por exemplo, de maneira geral, considera-se uma linha em que um liberal está à esquerda de um conservador e à direita de um socialista, com o anarquista ainda mais à esquerda. Entretanto, o pensamento conservador tem muitas afinidades com o socialista, pela ênfase na ordem e na segurança, enquanto o pensamento liberal converge com o anarquista na sua valorização da liberdade individual como princípio máximo e na sua desconfiança em relação ao Estado.

O problema, no meu entender, é que a divisão entre esquerda e direita se dá em vários eixos e, se pararem para avaliar, as pessoas irão se reconhecer bem mais à direita do que admitem. Para isso desenvolvi um ideologímetro. Marque no ideologímetro abaixo onde você se situa:

Comunidade   ______________|______________ Indivíduo
Igualdade        ______________|______________ Liberdade
Segurança       ______________|______________ Risco
Planificação    ______________|______________ Competição
Uniformidade ______________|______________ Diversidade
Ordem             ______________|______________ Caos

Ideológica e politicamente, declaro-me um radical de centro, com tendências para a direita. Muitos pensam que estou fazendo blague, pois acham que radicalismo pressupõe posição extremada. Mas a palavra "radical" vem de raiz. Radical é quem vai à raiz do problema. Isso requer disposição, tempo e disciplina para refletir e analisar todos os lados da questão, suspendendo o julgamento passional interessado. Quem se declara comumente radical, ao contrário, adota uma posição fortemente afetiva, baseada em sentimentos e não em análise. O radical convencional não afirma ideias, opõe-se a pessoas ou grupos que considera diferentes de si, mais por simpatia ou antipatia, baseadas em sentimento ou trauma, do que por raciocínio. E a raiz de todo problema político está na paixão cega de quem defende o seu lado – no qual supõe toda a virtude – e joga no outro lado todo vício. Isso se chama maniqueísmo. Esta paixão é veemente. Portanto, o radical convencional é aquele que é veemente na defesa do interesse próprio, que sempre é racionalizado como se fosse interesse comum.
Aliás, a veemência é a única característica do radical comum que eu procuro manter. Mas prefiro defender veemente e apaixonadamente o direito que todos (eu e os outros) temos de lutar pelos próprios interesses, respeitando o direito dos outros de fazer o mesmo.

O todo é mais do que a soma das partes. Portanto, o interesse individual deve se subordinar ao interesse coletivo. Mas não existe tal coisa como “o” interesse coletivo, “o” bem comum, “a” vontade geral como queria Rousseau. O interesse coletivo surge da negociação dos interesses individuais. Não se trata de defender os fins, mas sim de assegurar os meios para que essa negociação de interesses se efetue. A isso se chama Estado de Direito.

O grande engano de Platão foi o de jogar a ética para um plano metafísico, ao afirmar um Bem absoluto, inventando a praga do idealismo. Ética não é coisa de deuses desapegados, é coisa de homens interessados. Há que reconhecer que todos têm interesses próprios e que a sua defesa é sempre legítima. Não é uma questão de fins. Danem-se os fins. Os meios é que são éticos. Se o mal existe, ele se chama violência: o uso da força. O que há de terrível na sentença de Maquiavel, de que os fins justificam os meios, é que ela sanciona a violência.

O uso da força permite ao forte impor suas idéias e manter o poder. Pode-se pedir ao mais forte que não use a sua força? Sim, mas isso é antinatural. O forte só deixará de usar a sua força por temer a união dos mais fracos. É neste pudor ou nesta repressão do uso da força do mais forte que se baseia o Estado de Direito.

Mas isso pode facilmente descambar para a ditadura dos mais fracos – a ditadura do rebanho que, de fato, é sempre uma ditadura de pastores disfarçada. Foi essa a grande revolução dos séculos XIX e XX, comandada por Nietzsche e Freud: a reabilitação da potência do indivíduo, o uso consciente das forças instintivas do indivíduo como critério maior de verdade e valor.

Para o socialista, todos os homens são iguais, mas, quando estão no poder, uns acabam sendo mais iguais do que os outros. Os liberais defendem a livre circulação de riquezas, mas, de preferência, num sentido só.


Socialismo e liberalismo são utopias – coisas de idealistas. Idealista é quem acha que sabe o que é melhor para todos. E eu tenho muito receio de quem pensa que sabe o que é melhor para os outros, a despeito deles mesmos. Idealistas querem o poder para colocar em prática suas ideias, o que não deixa de ser um interesse próprio. Defender o interesse próprio é legítimo, desde que se reconheça ao outro o mesmo direito. Nisso, no quesito democracia, o pensamento liberal é melhor do que o socialista.


sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O sentido da vida

É possível falar a sério sobre o sentido da vida depois de Monty Python? Ainda mais eu? Well, I'll try.

Qual o sentido da vida?

Ela mesma! A vida busca preservar-se. Eis a noção do bem universal: o que preserva é bom, o que destrói é mau. A morte não é finalidade, é fim.

Mas o que se conserva?

Não o mesmo, que sempre igual a si mesmo poderia ser o todo, mas também o nada. Não poderia ser princípio, pois para ser sucedido teria de mudar. Mais bem o mesmo sem movimento é a morte. O movimento é a regra da vida.

Para preservar-se na mudança a vida precisa mudar: permanência no movimento, conservação na mudança, variedade na identidade. Eis o conflito inerente à vida e que a torna tão maravilhosamente dinâmica e tão apaixonadamente trágica: o organismo vivo num tênue equilíbrio homeostático com o seu ambiente, lutando contra a indiferença de um universo aleatório.

domingo, 18 de outubro de 2015

Charruas

O tradicionalista gaúcho orgulha-se de ser descendente do "índio charrua" independente e lutador. A imagem do índio deitado no cavalo com a lança em riste lutando contra os portugueses se associa à dos Farrapos se insurgindo contra a coroa. Essa imagem revela uma faceta característica do gaúcho comum: o orgulho derivado da ignorância. Basta ir ao dicionário para saber que a palavra charrua designa o arado de madeira puxado por um animal (e guiado por outro).

Para o gaúcho, o Rio Grande é o mundo, porque ele desconhece o resto. A mais bela rua do mundo está em Porto Alegre, só em Uruguaiana se pode pisar em dois países ao mesmo tempo e outras bobagens que já li e ouvi até mesmo publicadas na Zero Hora - o melhor jornal do mundo.

Pois bem, se a charrua é o arado, o índio deriva seu nome da  ferramenta que empurrava de um lado enquanto o boi puxava do outro. Ambos animais domesticados pelo jesuíta espanhol. Vá se orgulhar de empurrar arado para patrão! Lá isso é símbolo de bravura e independência?

sábado, 13 de junho de 2015

Tempo Hormonal

A percepção do tempo é muito mais hormonal do que de racional. É fato que os jovens têm mais pressa do que os velhos. Parece natural que eles desejem que o tempo passe mais rápido para chegar à maturidade e que os velhos queiram que o tempo pare para adiar a morte. Mas o tempo e o envelhecimento não se aceleram por um ato de vontade. O único efeito da pressa é a agitação e a pressão por fazer mais coisas, mais rápido. Essa pressão deveria ser maior quanto menor o prazo. A lógica inverte o raciocínio do sentimento natural: quem deveria ter pressa de realizar mais coisas seriam os mais velhos que têm menos prazo e os jovens deveriam ter calma, pois seu prazo é mais longo.

Neto da Silva

Quando adolescente trabalhei no cartório do meu pai. Registro Civil: nascimentos, casamentos e óbitos. Os grandes eventos do drama humano registrados fria e uniformemente em letra miúda e livros enormes. Creio que é de lá o hábito de pensar sobre nomes – a única coisa agradável naquele trabalho.

Dia desses tive novamente de lidar com a burocracia massiva ao assinar centenas de documentos de pessoas. Chamaram minha atenção dois sobrenomes. Um era Fulano Teixeira de Mello Silva Neto[1], o outro Beltrano Neto da Silva.

Dar o próprio nome ao filho é uma reafirmação explícita da vontade de transcendência que já seria satisfeita pelo próprio fato de ter um filho. Certamente é uma manifestação de orgulho e auto-estima, cujo mérito parece ser confirmado pela aquiescência do parceiro. Para alguns críticos, tal orgulho é sinal de arrogância. Sem entrar em qualquer mérito, sempre que conheço um Filho ou Júnior, automaticamente penso num pai orgulhoso e numa mãe amorosa ou condescendente. Um Neto então me leva a conjecturas trans-geracionais e é isso que quero compartilhar.

Provavelmente, o Fulano Silva Neto deve ser filho do Fulano Teixeira de Mello Silva Filho. A própria composição de sobrenomes já indica o orgulho de pertencer a uma dinastia patriarcal. “Você sabe com quem está falando? Eu sou neto do Fulano Teixeira de Mello e Silva.”

Em tempos em que a mudança é a regra, a tradição não deveria se sustentar. Ou, talvez paradoxalmente, seja vista como inovação, como diferente. Pelo menos por um tempo. Mas também vivemos tempos em que a fama substituiu a glória e a honra. Mesmo que os feitos do antepassado estejam esquecidos pela memória coletiva, um nome composto sugere pompa e pompa se confunde facilmente com fama. O sujeito deve ser famoso.

Mas deixemos de lado o Silva Neto. O que dizer do Neto da Silva? Que certamente esta família passou pela história (ou tragédia) decantada pelo adágio: “pai rico, filho nobre, neto pobre” e, poderíamos acrescentar: bisneto ignorante. O Neto da Silva ignora quem na sua família foi neto de quem, e qual escrivão igualmente ignorante incorporou ao nome da mãe a pompa que se perdeu a seguir.




[1] Troquei o sobrenome composto para evitar qualquer referência pessoal.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Nossos Maiores Lamentos

Os gregos associavam deuses a conceitos. Para explicar o tempo, por exemplo, usavam dois deuses: Cronos e Kairos. Talvez os nossos maiores lamentos sejam a boca de Cronos e a careca de Kairos.

Cronos era um deus poderoso e soturno, que gerava e devorava seus filhos. Essa é a natureza do tempo quantitativo que passa, contado em horas, dias, anos: nascemos e somos devorados por ele. A boca de Cronos nos assombra: lamentamos o avanço da idade que nos consome e tememos nosso destino certo, a morte. Na mitologia grega, o único que escapou desse destino foi Zeus.

Kairos era um deus jovem e alegre, com asas nos pés e uma lâmina na mão. Além disso, usava um penteado que está de novo na moda, meio moicano, com um longo topete na frente e completamente careca atrás. Kairos representava o tempo qualitativo da oportunidade, que fica na memória e que corta o tempo em dois: antes e depois – por isso a lâmina. Um tempo que se conta em feitos e eventos. A oportunidade ocorre e passa rápido (as asas nos pés), se não é aproveitada se perde – não se pode agarrar Kairos pela careca. Mas oportunidade também se cria - planejar ou prevenir significa pegar Kairos pelo topete, preparar-se para a oportunidade.

Perder tempo, olhar a careca de Kairos, talvez seja o maior lamento moderno, pois Kairos anda bem ativo proporcionando oportunidades mil a todo momento.

domingo, 10 de agosto de 2014

Antes de Partir

Acontece de você se dar conta de que esqueceu a chave de casa no momento em que bate a porta – e a chave ficou trancada dentro? Pois é... o bater da porta funciona como um clique tardio. Realmente, o normal é a ansiedade por chegar ao lugar aonde se deve ir, ou pela “próxima atração” na TV. Esta antecipação do futuro – a pressa – é responsável por muitos esquecimentos que geram enormes perdas de tempo.

Por isso eu desenvolvi o hábito “Antes de Partir”: um pequeno ritual de três a cinco minutos antes de parar o que estou fazendo e ir para uma reunião ou sair do ambiente em que estou. Esse ritual envolve:
1)      Se vou interromper uma tarefa longa a meio, marco o ponto de interrupção e deixo um recado para mim mesmo dizendo o que eu estava pensando em fazer a seguir;
2)      Penso nos lugares que irei antes de voltar e se tenho pastas ou material de referência a levar;
3)      Coloco na mochila material necessário e não esqueço o Power Planner, o Notebook e minha Pasta de Pendências – ou apenas pego o celular e a carteira de documentos, caso se trate de um bate-e-volta e eu não precise de mais nada;
4)      Organizo o local que estou deixando, colocando as coisas que usei nos seus respectivos lugares.

Essa rotina não toma mais do que cinco minutos e economiza muito mais do que isso, tanto na prontidão da informação necessária durante as reuniões (e que muitas vezes é esquecida na pressa de partir) como na retomada posterior das tarefas. A maioria dos adiamentos se dá pela falta da informação necessária.

Você já tentou retomar a leitura de um livro que estava lendo e que deixou de lado há algum tempo atrás sem deixar um marcador no lugar em que interrompera a leitura? Provavelmente releu várias partes até encontrar o ponto em que se encontrava, não? É impressionante como o fato de deixar uma marca no local físico em que se estava no ponto de interrupção acelera a recuperação do estado de concentração quando da retomada do trabalho[1]. O recado para si mesmo acelera ainda mais essa retomada.

Confesso que o desenvolvimento deste hábito é algo relativamente recente e me tornou pontual. Sim, antes eu era alvo de piadas de amigos que brincavam com os pequenos, mas recorrentes atrasos do “especialista em gestão do tempo”. Hoje, posso dizer que estou surpreendendo com minha nova pontualidade graças ao desenvolvimento do hábito “Antes de Partir”.

Mas, para desenvolver um hábito você precisa criar três fatores: o clique, a recompensa e o anseio pela recompensa [2] e repetir a rotina muitas vezes até torná-la automática. Em seu livro “O Poder do Hábito”, Charles Duhigg dá vários exemplos de como usar os três fatores para criar e mudar hábitos. O clique é o elemento disparador do ritual – tem de ser algo objetivo que ocorra necessariamente e desperte a rotina. Na minha rotina “Antes de Partir” o clique ou é o lembrete do próximo compromisso ou, na ausência deste, é o ato de pegar o celular ou desligar o computador. Isso dispara a rotina dos quatro passos acima.

As recompensas que desenvolvi são duas: 1) congratulo-me antecipadamente por saber que não vou me atrasar nem lamentar esquecer nada, e 2) tenho a satisfação de deixar meus ambientes de trabalho sempre asseados[3].

Entretanto, confesso que este hábito não está completamente consolidado, pois experimento ainda uma enorme dificuldade em relação ao desenvolvimento do anseio por essas recompensas. Isso porque há outro anseio no sentido contrário – de continuar o que eu estava fazendo. Diferentemente da maioria das pessoas, tenho pouca dificuldade para atingir o estado de concentração necessário para as tarefas que requerem atenção. Mas, quando atinjo este estado de foco, anseio tanto por me manter nele que, muitas vezes, o clique do lembrete passa praticamente despercebido.

O psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi (pronuncia-se “six-cent-mihaly”) dedicou-se a estudar o estado de atenção sem esforço em que se atinge uma concentração tão profunda que se perde a noção do tempo, de si mesmo e de qualquer outro problema. As pessoas que o experimentam descrevem uma experiência de alegria que Mihaly chama de “experiência ótima” ou “estado de fluxo”. Nesse estado, manter a atenção concentrada numa tarefa cognitiva não requer o esforço de controle deliberado da atenção. As características principais do estado de fluxo são:
  • Objetivos claros e alcançáveis, alinhados à percepção de capacidade da pessoa;
  • Concentração e foco: imersão no tema e campo de atenção limitado a ele;
  • Perda de inibição: uma união entre ação e percepção;
  • Percepção de tempo distorcida: a experiência de duração é alterada paralelamente ao ajuste de comportamento provocado pelo efeito retroativo direto e imediato dos acertos e falhas percebidos.
  • Equilíbrio entre os níveis de desafio e de habilidade. Há necessidade de um nível de desafio para entrar em fluxo, mas se o desafio é percebido como muito além da habilidade, o estado de fluxo não se estabelece.
  • Sensação de controle pessoal sobre a atividade;
  • Recompensa intrínseca à própria atividade reduz a sensação de esforço mental.[4]
De fato, estou ainda no processo de usar essa capacidade de concentração residual para focar no recado para mim mesmo assim que o lembrete aciona o clique da rotina. 



[1]  Editores de texto e planilhas eletrônicas permitem que se agregue um Comentário a um parágrafo ou célula. Para trabalhos em papel, o Post-it é a melhor solução.
[2]  DUHIGG, C. (2012). O Poder do Hábito. (R. Mantovani, Trad.) Rio de Janeiro: Objetiva.
[3] Como dou cursos e palestras em ambientes de terceiros, também me congratulo pela certeza de que passei a deixar tudo no lugar que encontrei.
[4] ZIMBARDO, P., & BOYD, J. (2009). O Paradoxo do Tempo. (S. Adriano, Trad.) Rio de Janeiro: Objetiva.



domingo, 25 de maio de 2014

Estudantes com Laptop aprendem menos

Esta é a tradução de uma matéria de Fred Barbash publicada no Washington Post
Por que estudantes usando laptops aprendem menos em aula mesmo quando estão realmente anotando

Você é um daqueles caras antiquados que insistem que os garotos aprendem melhor quando deixam os laptops em casa e tomam notas à mão nas aulas?
Se é assim, você está certo. Há nova evidência para provar isso, e isso é perturbador porque tantos estudantes não são mais ensinados a escrever à mão.
De acordo com um novo estudo baseado numa série de experimentos em laboratório comparando o quanto os estudantes aprenderam após assistir às mesmas aulas, é inquestionável: quem escreve à mão aprende mais, simples assim. Aqueles que tomaram notas à mão demonstraram ter tirado mais das aulas do que os digitadores.
Não é, porém, pelas razões que a maioria pensa. Não é por causa da "multi-tarefa" ou da distração disponível para estudantes que usam laptops, especialmente com WiFi. Isto é  um problema em si. Mas, para esse estudo, num ambiente controlado, nenhuma atividade externa era permitida.
Mesmo quando os estudantes prestavam atenção e tomavam copiosas notas nos seus laptops, ainda assim não aprendiam tão bem. De fato, o volume da sua anotação pode ser parte do problema, como o estudo descobriu.
Pode ser, reportaram os pesquisadores, "que quem anota à mão processa melhor a informação do que quem digita, assim selecionando a informação mais importante para incluir em suas notas, o que os permite estudar" mais eficientemente.
Os autores são os psicólogos Pam A. Meller da Universidade de Princeton e Daniel M. Oppenheimer da UCLA. O estudo, intitulado "A Caneta é Mais Poderosa do que o Teclado: Vantagens da Anotação à Mão Sobre Notas em Laptop," foi publicado online na revista Psychological Science. Ele também foi resumido no Science Daily.
Os pesquisadores conduziram três estudos separados envolvendo um total de 327 estudantes para chegar às suas conclusões. todos os estudantes assistiram às mesmas aulas, mas alguns recebiam laptops para anotar enquanto outros eram instruídos a anotar à mão.
Quanto ao aprendizado dos conceitos apresentados nas aulas os anotadores à mão ganharam.
Quanto à recuperação de fatos, os grupos tiveram resultados comparáveis, exceto quando lhes foi dado tempo para estudar suas anotações em casa, quando, mais uma vez, os anotadores à mão se saíram melhor.
"Mesmo quando lhes foi permitido revisar as notas após um período de uma semana, os participantes que haviam tomado notas com laptops, tiveram um desempenho pior tanto em relação ao conteúdo factual como quanto à compreensão conceitual..."
De maneira geral, os pesquisadores reportaram:
"Quando testados em relação ao que tinham ouvido, os estudantes que anotaram à mão aprenderam melhor. Eles saíram com uma compreensão conceitual significativamente melhor e não se saíram pior do que os usuários de laptop quando se tratou de recordar fatos."
Eis o que é um pouco assustador. Quando os pesquisadores instruíram os estudantes com laptop a reduzir ou eliminar a anotação literal, eles não conseguiram. Os pesquisadores escreveram:
"O uso do laptop pode afetar negativamente o desempenho nas avaliações de aprendizado, mesmo, ou especialmente, quando o computador é usado com a função de facilitar a anotação. Embora um número maior de notas traga benefício, pelo menos até certo ponto, se as notas são escritas indiscriminadamente, ou através de uma mera transcrição das palavras, o que é mais provável no caso de notas digitadas do que em notas escritas à mão, o  benefício desaparece."
De fato, o estudo se acrescenta a uma tonelada de evidências de que para o aprendizado, escrever à mão é melhor e que "a mão tem uma relação única dom o cérebro quando se trata de compor pensamentos e ideias." Isso também é suportado por estudos envolvendo Ressonância Magnética do cérebro. Escrever à mão ativa o cérebro de formas diferentes daquelas usadas na digitação de forma a aumentar o aprendizado.
É claro que a chance de convencer os estudantes a deixar de lado seus computadores é provavelmente nula. Muitos deles já não conseguem mais escrever à mão, um assunto esquecido em muitas escolas americanas, o que já é uma fonte de controvérsia em si.
Há esperança? Pode ser, Mueller disse num e-mail para o Wasshington Post:
"Como descobrimos que isso é resultado de uma tendência dos usuários de laptop a tomar notas de forma literal, se for possível ensinar às crianças a não serem tão literais e serem mais seletivas na sua anotação nos laptops (i.e., como se é forçado a fazer na anotação à mão), eles teriam um desempenho equivalente aos anotadores à mão. Porém... descobrimos que apenas dizer às pessoas para não serem literais simplesmente não funciona, assim qualquer intervenção nesse sentido que se possa imaginar será bastante difícil."
Outra possibilidade, alguns sugeriram, são os apps que permitem a escrita à mão em tablets, um compromisso que os estudantes poderiam aceitar.





sábado, 19 de abril de 2014

Três Motores

O que move a ação? O que faz as pessoas agirem? Três motivações básicas: o medo, o dinheiro e o sonho. Nesta ordem de força e de ocorrência.

O medo da morte é o motor mais forte e mais frequente. Primeiro o medo da morte física. Sobreviver é a necessidade maior. Todos fazem de tudo para sobreviver. Isso criou deuses, religiões, mitos e filosofias que transcendem esta vida, assim como tecnologias que a estendem. Mas há também o medo da morte social: do abandono, do desprezo, do esquecimento. Precisamos de amor, de admiração, de atenção. Isso nos leva a agradar, a ser úteis, a dar para receber, a trocar enfim. O outro – o que ele faz para nós, o que ele pensa de nós – nos interessa. Fazemos de tudo para ser amados. O amor em suas várias formas é a segunda necessidade. Mas o medo destas duas mortes é o primeiro motor.
Desejo não é necessidade. Desejamos um objeto que acreditamos que satisfará a necessidade. O desejo nasce da necessidade, mas se dirige ao objeto e se baseia na crença. E o objeto que todos acreditamos que pode satisfazer qualquer necessidade é o dinheiro. O dinheiro é a epítome e a encarnação do desejo. Muitos fazem qualquer coisa por dinheiro. Este é o segundo motor.

O terceiro motor, mais raro e mais fraco, é o ideal. Ideal é crença e transcendência pura – o esquecimento do eu, do aqui e do agora em nome de uma perfeição imaginada, de um sonho. Não importa se o sonho é realista, o que importa é que eu me movo agora em busca dele. Nenhum sonho é real – se ele nasce da realidade é para transformá-la. Não é a realidade que cria o sonho, é o sonho que cria realidades e que transforma o mundo. A ideia, o ideal, o sonho, a fantasia, transformam o mundo real e criam mundos fantásticos. O sonho é o motor dos gênios e dos loucos. Não para sobreviver, mas para voar.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Princípios de Priorização

1. Priorizar é valorizar.

Prioridade é o que tem valor, o que é importante. E para priorizar bem, é preciso ter clareza sobre os próprios valores. Nós não criamos valores, mas os escolhemos entre as várias propostas que nos fazem. Atendo a demanda do meu chefe porque isso tem valor para mim – seja obedecendo porque valorizo o meu emprego, seja colaborando porque quero cooperar e ser útil. Da mesma forma atendo demandas de clientes, de minha esposa, de meus filhos, de colegas, e as minhas próprias. Entretanto sou sempre eu que escolho em qualquer caso. E sempre de acordo com a minha escala de valores.
2. Priorizar é valorizar em conjunto.

Quando alguém diz que família é uma prioridade, significa que dá valor à família. Mas ainda não está priorizando, está apenas valorizando. A priorização só ocorre quando se comparam valores em conjunto. A prioridade de alguma coisa não é um atributo desta coisa isolada, mas varia conforme o conjunto em que ela é colocada. Isto vale tanto para a importância quanto para a urgência e tem implicações sutis. Uma mesma coisa, quando avaliada em conjuntos diferentes terá prioridades diferentes. Por exemplo, uma mesma tarefa pode ter prioridades diferentes na lista semanal e na lista diária.

3. Urgente é o que não pode ser feito depois.

Depois do quê? Do horizonte de tempo que se está planejando. A urgência de algo é dada pelo seu prazo fatal comparado com o horizonte de tempo que está sendo abarcado no planejamento. Ao fazer o plano do dia, só se deve classificar como urgente o que não se pode deixar para fazer amanhã. Algo cujo prazo é daqui a dois dias só deveria ser classificado como urgente no plano do dia se a sua duração é maior do que o tempo disponível no dia. Entretanto, não pode deixar de ser considerado urgente no plano da semana.

Muitas coisas não têm prazo fatal iminente.  Quase sempre, entretanto, as pessoas usam o prazo como forma de pressão e comprometem-se mutuamente com prazos cuja perda afeta a credibilidade. Mas um prazo comprometido pode ser renegociado sem grande perda de crédito.

terça-feira, 11 de março de 2014

O Radar e a Lupa


A Ciência Cognitiva surgiu da convergência entre neurologia, psicologia e informática e sua Teoria dos Dois Sistemas postula que o funcionamento do cérebro se caracteriza por duas formas de cognição com objetivos e mecanismos separados que, no mais das vezes cooperam, mas que podem divergir[1]. Um dos sistemas é automático e rápido, funciona paralelamente baseado em várias regras heurísticas de resposta a estímulos específicos e consome pouca energia. Esse sistema é chamado de Sistema 1 ou Conjunto de Sistemas Autônomos. Dizer que ele é automático significa que ele opera sem necessidade de atenção consciente. Regra heurística é uma forma simples de resolver um problema de maneira prática, ainda que imperfeita, porque baseada em dados imediatos. O outro sistema, chamado de Sistema 2 ou Sistema Analítico ou ainda Sistema Oneroso é o responsável pela atenção consciente e processos trabalhosos de análise de dados e cálculos complexos. Esse sistema funciona serialmente num fluxo de atenção contínuo que requer esforço mental e é fortemente influenciado pela linguagem. Nós nos acreditamos racionais e conscientes e, portanto, nos identificamos com nosso Sistema Analítico. Porém, o Sistema Autônomo é quem determina a maior parte do nosso comportamento. Inclusive, os dados com que o Sistema Analítico trabalha são, em sua maior parte, apresentados e filtrados pelo Sistema Autônomo.

As capacidades do Sistema 1 têm duas origens. Trazemos heurísticas inatas herdadas geneticamente e que compartilhamos com outros animais. Somos animais e nosso cérebro evoluiu ao longo de milhões de anos para responder automaticamente a uma série de estímulos de forma a maximizar as possibilidades de sobrevivência. Como qualquer animal, fugimos automaticamente (sem pensar) de situações que ameaçam a vida e buscamos automaticamente (sem pensar) aquilo que a mantém. Mas também podemos automatizar respostas rápidas por meio da prática prolongada. Como alguns animais, também podemos ser domesticados ou especializados através do desenvolvimento de reações automáticas condicionadas por meio de treinamento.

Nos vemos como seres conscientes e autônomos, nos identificamos com nosso Sistema 2, mas quem responde, automática e deterministicamente, pela maioria das nossas decisões é o Sistema 1. O Sistema 1 está no "front" enquanto o Sistema 2 fica desligado esperando para ser chamado ou só atuando em caso de crise. Isso constitui duas modalidades de atenção. Uma, característica do Sistema 1, que atua como um radar, vasculhando o ambiente em busca de sinais de alerta. A outra, típica do Sistema 2, é a atenção focada e exclusiva como a de uma lupa.

A atenção tipo radar é dispersa e holística no sentido de que procura estar atenta a toda circunstância. Mas também é sintonizada para detectar variações bruscas ou elementos pontuais, não sendo capaz de identificar processos de mudança mais lentos ou de perceber o todo em si. A atenção tipo radar é aquela que todos temos sem nenhum esforço. Já a atenção tipo lupa precisa ser convocada para atuar, caso contrário permanece “desligada” para não consumir energia. O radar, por seu turno, não é completamente desligado. Mesmo quando a lupa é chamada a atuar no "front" o radar é amortecido, mas fica ativo na retaguarda. Em caso de algum sinal de alerta maior ele pode desligar a lupa do Sistema 2 e disparar uma resposta rápida do arsenal do Sistema 1.

Este é o problema central da administração do tempo: a qualidade da atenção que colocamos em nossos processos de decisão. De fato, não somos escravos do tempo, mas de nós mesmos, ou melhor, deste poderoso “zumbi” dentro de nós, responsável pela maior parte do nosso comportamento constituído por reações automáticas do Sistema 1. Estar no controle e agir conscientemente requer a atenção do Sistema 2. Mas o natural é reagir. Portanto, administrar melhor o tempo significa procurar aumentar a parcela de ações conscientes no dia-a-dia e adestrar nosso Sistema 1 para responder adequadamente num ambiente novo, cheio de informação, que requer cada vez mais capacidade analítica na solução de problemas cotidianos e que está cheio de armadilhas para manipular as emoções que tanto ajudaram nossos antepassados a sobreviver na selva primal. Resumindo, administrar o tempo é agir mais e reagir menos.

Jaime Wagner
www.powerself.com.br



[1]  KAHNEMAN, D. (2011). Rápido e Devagar - Duas Formas de Pensar. Rio de Janeiro: Objetiva. STANOVICH, K. E. (2005). The Robot's Rebellion - Finding Meaning in the Age of Darwin. Chicago: The University of Chicago Press.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Fraqueza Maior


A escalada da violência e a inoperância das “notoriedades” é de um absurdo que revolta quem conserva alguma dignidade do lado de cá e deveria envergonhar quem a tivesse do lado de lá. Não uso a palavra autoridade porque esta é sempre de natureza moral e precisa ser reconhecida. A maioria do lado de lá busca apenas a notoriedade dos instrumentos de status e poder, falta-lhes o essencial para merecer meu reconhecimento.
A polícia diz que não prende porque a Justiça solta. A Justiça diz que solta porque os presídios estão lotados. O Executivo diz que os presídios estão lotados porque a Justiça não julga e não libera os delinquentes menores. E todos dizem que não fazem mais por falta de recursos. Pedem mais policiais, juízes e... impostos. Assim se consuma o duplo assalto: dos bandidos e do erário. Resta aderir e delinquir também. E nem Estado, nem sociedade, com a exceção de alguns indivíduos fazem por melhorar, justificando-se pela fraqueza e pela culpa tanto alheia quanto própria. Fraqueza gera fraqueza. Esta “fraqueza maior” que a todos contamina e a todos redime é a justificativa típica da criança – incapaz por natureza. O Luís Lamb matou: “Não somos um país jovem, somos um povo infantil”. Mas isso não nos redime.

A “fraqueza maior” assumida como natural em nós se agrega ao “caso fortuito” e à “força maior”: as redenções da responsabilidade reconhecidas pelo Direito. Diante do acaso imprevisível e do determinismo incontrolável a vontade se ajoelha e a soberba se humilha. Mas também a culpa se esvai. Nada a fazer. Só resta aceitar o curso dos acontecimentos. Dar de ombros é sensatez, pois nada mais nos compete. Porém, a ação humana adulta requer a boa prática: prudência, pelo menos, senão previsão; técnica sempre aprimorada; e atenção, quando não cuidado extremado. Qualquer falta aqui é culpa: imprudência, imperícia e negligência. Culpa ou incapacidade? Veredicto: culpa "e" incapacidade.
O Estado deveria cuidar da sociedade e fazê-la amadurecer como um pai. Quando o pai é incapaz resta à criança amadurecer por seus próprios meios ou, o que é mais provável, reproduzir a incapacidade na próxima geração. De qualquer forma chorar pelo pai não adianta. Pedir mais pai só cristaliza e reproduz a incapacidade.