sexta-feira, 25 de março de 2016

Radical de Centro

Resolvi reeditar um artigo que escrevi em 2005 para o Baguete acrescentando uma linha ao meu ideologímetro. Segue:

As pessoas se declaram de esquerda ou direita, mais por afinidade do que por qualquer outra coisa. Seja por afinidade de interesses ou afetiva, o posicionamento político é muito mais emocional do que racional: um perfilamento simpático – ou uma rejeição antipática – a pessoas, mais do que a ideias. Uma variante deste posicionamento diz respeito ao poder. Quem defende quem está no poder é de direita, quem o contesta é de esquerda.

Falar em esquerda e direita condiciona um pensamento linear em uma única dimensão. Em relação a ideias, o conceito de esquerda e direita é bem mais complexo do que quer o senso comum. Por exemplo, de maneira geral, considera-se uma linha em que um liberal está à esquerda de um conservador e à direita de um socialista, com o anarquista ainda mais à esquerda. Entretanto, o pensamento conservador tem muitas afinidades com o socialista, pela ênfase na ordem e na segurança, enquanto o pensamento liberal converge com o anarquista na sua valorização da liberdade individual como princípio máximo e na sua desconfiança em relação ao Estado.

O problema, no meu entender, é que a divisão entre esquerda e direita se dá em vários eixos e, se pararem para avaliar, as pessoas irão se reconhecer bem mais à direita do que admitem. Para isso desenvolvi um ideologímetro. Marque no ideologímetro abaixo onde você se situa:

Comunidade   ______________|______________ Indivíduo
Igualdade        ______________|______________ Liberdade
Segurança       ______________|______________ Risco
Planificação    ______________|______________ Competição
Uniformidade ______________|______________ Diversidade
Ordem             ______________|______________ Caos

Ideológica e politicamente, declaro-me um radical de centro, com tendências para a direita. Muitos pensam que estou fazendo blague, pois acham que radicalismo pressupõe posição extremada. Mas a palavra "radical" vem de raiz. Radical é quem vai à raiz do problema. Isso requer disposição, tempo e disciplina para refletir e analisar todos os lados da questão, suspendendo o julgamento passional interessado. Quem se declara comumente radical, ao contrário, adota uma posição fortemente afetiva, baseada em sentimentos e não em análise. O radical convencional não afirma ideias, opõe-se a pessoas ou grupos que considera diferentes de si, mais por simpatia ou antipatia, baseadas em sentimento ou trauma, do que por raciocínio. E a raiz de todo problema político está na paixão cega de quem defende o seu lado – no qual supõe toda a virtude – e joga no outro lado todo vício. Isso se chama maniqueísmo. Esta paixão é veemente. Portanto, o radical convencional é aquele que é veemente na defesa do interesse próprio, que sempre é racionalizado como se fosse interesse comum.
Aliás, a veemência é a única característica do radical comum que eu procuro manter. Mas prefiro defender veemente e apaixonadamente o direito que todos (eu e os outros) temos de lutar pelos próprios interesses, respeitando o direito dos outros de fazer o mesmo.

O todo é mais do que a soma das partes. Portanto, o interesse individual deve se subordinar ao interesse coletivo. Mas não existe tal coisa como “o” interesse coletivo, “o” bem comum, “a” vontade geral como queria Rousseau. O interesse coletivo surge da negociação dos interesses individuais. Não se trata de defender os fins, mas sim de assegurar os meios para que essa negociação de interesses se efetue. A isso se chama Estado de Direito.

O grande engano de Platão foi o de jogar a ética para um plano metafísico, ao afirmar um Bem absoluto, inventando a praga do idealismo. Ética não é coisa de deuses desapegados, é coisa de homens interessados. Há que reconhecer que todos têm interesses próprios e que a sua defesa é sempre legítima. Não é uma questão de fins. Danem-se os fins. Os meios é que são éticos. Se o mal existe, ele se chama violência: o uso da força. O que há de terrível na sentença de Maquiavel, de que os fins justificam os meios, é que ela sanciona a violência.

O uso da força permite ao forte impor suas idéias e manter o poder. Pode-se pedir ao mais forte que não use a sua força? Sim, mas isso é antinatural. O forte só deixará de usar a sua força por temer a união dos mais fracos. É neste pudor ou nesta repressão do uso da força do mais forte que se baseia o Estado de Direito.

Mas isso pode facilmente descambar para a ditadura dos mais fracos – a ditadura do rebanho que, de fato, é sempre uma ditadura de pastores disfarçada. Foi essa a grande revolução dos séculos XIX e XX, comandada por Nietzsche e Freud: a reabilitação da potência do indivíduo, o uso consciente das forças instintivas do indivíduo como critério maior de verdade e valor.

Para o socialista, todos os homens são iguais, mas, quando estão no poder, uns acabam sendo mais iguais do que os outros. Os liberais defendem a livre circulação de riquezas, mas, de preferência, num sentido só.


Socialismo e liberalismo são utopias – coisas de idealistas. Idealista é quem acha que sabe o que é melhor para todos. E eu tenho muito receio de quem pensa que sabe o que é melhor para os outros, a despeito deles mesmos. Idealistas querem o poder para colocar em prática suas ideias, o que não deixa de ser um interesse próprio. Defender o interesse próprio é legítimo, desde que se reconheça ao outro o mesmo direito. Nisso, no quesito democracia, o pensamento liberal é melhor do que o socialista.


sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

O sentido da vida

É possível falar a sério sobre o sentido da vida depois de Monty Python? Ainda mais eu? Well, I'll try.

Qual o sentido da vida?

Ela mesma! A vida busca preservar-se. Eis a noção do bem universal: o que preserva é bom, o que destrói é mau. A morte não é finalidade, é fim.

Mas o que se conserva?

Não o mesmo, que sempre igual a si mesmo poderia ser o todo, mas também o nada. Não poderia ser princípio, pois para ser sucedido teria de mudar. Mais bem o mesmo sem movimento é a morte. O movimento é a regra da vida.

Para preservar-se na mudança a vida precisa mudar: permanência no movimento, conservação na mudança, variedade na identidade. Eis o conflito inerente à vida e que a torna tão maravilhosamente dinâmica e tão apaixonadamente trágica: o organismo vivo num tênue equilíbrio homeostático com o seu ambiente, lutando contra a indiferença de um universo aleatório.

domingo, 18 de outubro de 2015

Charruas

O tradicionalista gaúcho orgulha-se de ser descendente do "índio charrua" independente e lutador. A imagem do índio deitado no cavalo com a lança em riste lutando contra os portugueses se associa à dos Farrapos se insurgindo contra a coroa. Essa imagem revela uma faceta característica do gaúcho comum: o orgulho derivado da ignorância. Basta ir ao dicionário para saber que a palavra charrua designa o arado de madeira puxado por um animal (e guiado por outro).

Para o gaúcho, o Rio Grande é o mundo, porque ele desconhece o resto. A mais bela rua do mundo está em Porto Alegre, só em Uruguaiana se pode pisar em dois países ao mesmo tempo e outras bobagens que já li e ouvi até mesmo publicadas na Zero Hora - o melhor jornal do mundo.

Pois bem, se a charrua é o arado, o índio deriva seu nome da  ferramenta que empurrava de um lado enquanto o boi puxava do outro. Ambos animais domesticados pelo jesuíta espanhol. Vá se orgulhar de empurrar arado para patrão! Lá isso é símbolo de bravura e independência?

sábado, 13 de junho de 2015

Tempo Hormonal

A percepção do tempo é muito mais hormonal do que de racional. É fato que os jovens têm mais pressa do que os velhos. Parece natural que eles desejem que o tempo passe mais rápido para chegar à maturidade e que os velhos queiram que o tempo pare para adiar a morte. Mas o tempo e o envelhecimento não se aceleram por um ato de vontade. O único efeito da pressa é a agitação e a pressão por fazer mais coisas, mais rápido. Essa pressão deveria ser maior quanto menor o prazo. A lógica inverte o raciocínio do sentimento natural: quem deveria ter pressa de realizar mais coisas seriam os mais velhos que têm menos prazo e os jovens deveriam ter calma, pois seu prazo é mais longo.

Neto da Silva

Quando adolescente trabalhei no cartório do meu pai. Registro Civil: nascimentos, casamentos e óbitos. Os grandes eventos do drama humano registrados fria e uniformemente em letra miúda e livros enormes. Creio que é de lá o hábito de pensar sobre nomes – a única coisa agradável naquele trabalho.

Dia desses tive novamente de lidar com a burocracia massiva ao assinar centenas de documentos de pessoas. Chamaram minha atenção dois sobrenomes. Um era Fulano Teixeira de Mello Silva Neto[1], o outro Beltrano Neto da Silva.

Dar o próprio nome ao filho é uma reafirmação explícita da vontade de transcendência que já seria satisfeita pelo próprio fato de ter um filho. Certamente é uma manifestação de orgulho e auto-estima, cujo mérito parece ser confirmado pela aquiescência do parceiro. Para alguns críticos, tal orgulho é sinal de arrogância. Sem entrar em qualquer mérito, sempre que conheço um Filho ou Júnior, automaticamente penso num pai orgulhoso e numa mãe amorosa ou condescendente. Um Neto então me leva a conjecturas trans-geracionais e é isso que quero compartilhar.

Provavelmente, o Fulano Silva Neto deve ser filho do Fulano Teixeira de Mello Silva Filho. A própria composição de sobrenomes já indica o orgulho de pertencer a uma dinastia patriarcal. “Você sabe com quem está falando? Eu sou neto do Fulano Teixeira de Mello e Silva.”

Em tempos em que a mudança é a regra, a tradição não deveria se sustentar. Ou, talvez paradoxalmente, seja vista como inovação, como diferente. Pelo menos por um tempo. Mas também vivemos tempos em que a fama substituiu a glória e a honra. Mesmo que os feitos do antepassado estejam esquecidos pela memória coletiva, um nome composto sugere pompa e pompa se confunde facilmente com fama. O sujeito deve ser famoso.

Mas deixemos de lado o Silva Neto. O que dizer do Neto da Silva? Que certamente esta família passou pela história (ou tragédia) decantada pelo adágio: “pai rico, filho nobre, neto pobre” e, poderíamos acrescentar: bisneto ignorante. O Neto da Silva ignora quem na sua família foi neto de quem, e qual escrivão igualmente ignorante incorporou ao nome da mãe a pompa que se perdeu a seguir.




[1] Troquei o sobrenome composto para evitar qualquer referência pessoal.