terça-feira, 11 de março de 2014

O Radar e a Lupa


A Ciência Cognitiva surgiu da convergência entre neurologia, psicologia e informática e sua Teoria dos Dois Sistemas postula que o funcionamento do cérebro se caracteriza por duas formas de cognição com objetivos e mecanismos separados que, no mais das vezes cooperam, mas que podem divergir[1]. Um dos sistemas é automático e rápido, funciona paralelamente baseado em várias regras heurísticas de resposta a estímulos específicos e consome pouca energia. Esse sistema é chamado de Sistema 1 ou Conjunto de Sistemas Autônomos. Dizer que ele é automático significa que ele opera sem necessidade de atenção consciente. Regra heurística é uma forma simples de resolver um problema de maneira prática, ainda que imperfeita, porque baseada em dados imediatos. O outro sistema, chamado de Sistema 2 ou Sistema Analítico ou ainda Sistema Oneroso é o responsável pela atenção consciente e processos trabalhosos de análise de dados e cálculos complexos. Esse sistema funciona serialmente num fluxo de atenção contínuo que requer esforço mental e é fortemente influenciado pela linguagem. Nós nos acreditamos racionais e conscientes e, portanto, nos identificamos com nosso Sistema Analítico. Porém, o Sistema Autônomo é quem determina a maior parte do nosso comportamento. Inclusive, os dados com que o Sistema Analítico trabalha são, em sua maior parte, apresentados e filtrados pelo Sistema Autônomo.

As capacidades do Sistema 1 têm duas origens. Trazemos heurísticas inatas herdadas geneticamente e que compartilhamos com outros animais. Somos animais e nosso cérebro evoluiu ao longo de milhões de anos para responder automaticamente a uma série de estímulos de forma a maximizar as possibilidades de sobrevivência. Como qualquer animal, fugimos automaticamente (sem pensar) de situações que ameaçam a vida e buscamos automaticamente (sem pensar) aquilo que a mantém. Mas também podemos automatizar respostas rápidas por meio da prática prolongada. Como alguns animais, também podemos ser domesticados ou especializados através do desenvolvimento de reações automáticas condicionadas por meio de treinamento.

Nos vemos como seres conscientes e autônomos, nos identificamos com nosso Sistema 2, mas quem responde, automática e deterministicamente, pela maioria das nossas decisões é o Sistema 1. O Sistema 1 está no "front" enquanto o Sistema 2 fica desligado esperando para ser chamado ou só atuando em caso de crise. Isso constitui duas modalidades de atenção. Uma, característica do Sistema 1, que atua como um radar, vasculhando o ambiente em busca de sinais de alerta. A outra, típica do Sistema 2, é a atenção focada e exclusiva como a de uma lupa.

A atenção tipo radar é dispersa e holística no sentido de que procura estar atenta a toda circunstância. Mas também é sintonizada para detectar variações bruscas ou elementos pontuais, não sendo capaz de identificar processos de mudança mais lentos ou de perceber o todo em si. A atenção tipo radar é aquela que todos temos sem nenhum esforço. Já a atenção tipo lupa precisa ser convocada para atuar, caso contrário permanece “desligada” para não consumir energia. O radar, por seu turno, não é completamente desligado. Mesmo quando a lupa é chamada a atuar no "front" o radar é amortecido, mas fica ativo na retaguarda. Em caso de algum sinal de alerta maior ele pode desligar a lupa do Sistema 2 e disparar uma resposta rápida do arsenal do Sistema 1.

Este é o problema central da administração do tempo: a qualidade da atenção que colocamos em nossos processos de decisão. De fato, não somos escravos do tempo, mas de nós mesmos, ou melhor, deste poderoso “zumbi” dentro de nós, responsável pela maior parte do nosso comportamento constituído por reações automáticas do Sistema 1. Estar no controle e agir conscientemente requer a atenção do Sistema 2. Mas o natural é reagir. Portanto, administrar melhor o tempo significa procurar aumentar a parcela de ações conscientes no dia-a-dia e adestrar nosso Sistema 1 para responder adequadamente num ambiente novo, cheio de informação, que requer cada vez mais capacidade analítica na solução de problemas cotidianos e que está cheio de armadilhas para manipular as emoções que tanto ajudaram nossos antepassados a sobreviver na selva primal. Resumindo, administrar o tempo é agir mais e reagir menos.

Jaime Wagner
www.powerself.com.br



[1]  KAHNEMAN, D. (2011). Rápido e Devagar - Duas Formas de Pensar. Rio de Janeiro: Objetiva. STANOVICH, K. E. (2005). The Robot's Rebellion - Finding Meaning in the Age of Darwin. Chicago: The University of Chicago Press.

domingo, 26 de janeiro de 2014

Fraqueza Maior


A escalada da violência e a inoperância das “notoriedades” é de um absurdo que revolta quem conserva alguma dignidade do lado de cá e deveria envergonhar quem a tivesse do lado de lá. Não uso a palavra autoridade porque esta é sempre de natureza moral e precisa ser reconhecida. A maioria do lado de lá busca apenas a notoriedade dos instrumentos de status e poder, falta-lhes o essencial para merecer meu reconhecimento.
A polícia diz que não prende porque a Justiça solta. A Justiça diz que solta porque os presídios estão lotados. O Executivo diz que os presídios estão lotados porque a Justiça não julga e não libera os delinquentes menores. E todos dizem que não fazem mais por falta de recursos. Pedem mais policiais, juízes e... impostos. Assim se consuma o duplo assalto: dos bandidos e do erário. Resta aderir e delinquir também. E nem Estado, nem sociedade, com a exceção de alguns indivíduos fazem por melhorar, justificando-se pela fraqueza e pela culpa tanto alheia quanto própria. Fraqueza gera fraqueza. Esta “fraqueza maior” que a todos contamina e a todos redime é a justificativa típica da criança – incapaz por natureza. O Luís Lamb matou: “Não somos um país jovem, somos um povo infantil”. Mas isso não nos redime.

A “fraqueza maior” assumida como natural em nós se agrega ao “caso fortuito” e à “força maior”: as redenções da responsabilidade reconhecidas pelo Direito. Diante do acaso imprevisível e do determinismo incontrolável a vontade se ajoelha e a soberba se humilha. Mas também a culpa se esvai. Nada a fazer. Só resta aceitar o curso dos acontecimentos. Dar de ombros é sensatez, pois nada mais nos compete. Porém, a ação humana adulta requer a boa prática: prudência, pelo menos, senão previsão; técnica sempre aprimorada; e atenção, quando não cuidado extremado. Qualquer falta aqui é culpa: imprudência, imperícia e negligência. Culpa ou incapacidade? Veredicto: culpa "e" incapacidade.
O Estado deveria cuidar da sociedade e fazê-la amadurecer como um pai. Quando o pai é incapaz resta à criança amadurecer por seus próprios meios ou, o que é mais provável, reproduzir a incapacidade na próxima geração. De qualquer forma chorar pelo pai não adianta. Pedir mais pai só cristaliza e reproduz a incapacidade.

A Filosofia da Banana


O que é a banana? Uma fruta responde o simplista - e para o sábio isso basta. O fruto comestível e sem sementes da bananeira explica o detalhista. Uma pseudobaga partenocárpica rica em potássio de uma herbácea acaule do gênero Musa originária do sudeste da Ásia - complica o cientista.
Se o cientista busca as respostas mais precisas, o filósofo busca as perguntas mais inusitadas, ambos igualmente ininteligíveis e chatos. Mas o filósofo é mais chato porque não se contenta com uma explicação e procede num rosário interminável de questionamentos e analogias.
Se a banana “é” o fruto, o que é mais banana, a polpa comestível ou a casca que a protege? Ou ambas? Se retiro a casca, ainda tenho a banana? Mas onde começa a polpa e onde termina a casca? Aqueles fiapos que se grudam na polpa são resíduos da casca ou adições à polpa? A polpa nasce da casca? Ou a casca é criada para protegê-la? O que podemos aprender sobre nós mesmos com a banana? Nós somos a casca da nossa personalidade ou o âmago do nosso self? É o self que escolhe os papéis sociais que definem a personalidade ou são esses papéis que conformam a noção de self?
E paro por aqui para que não me tachem de filósofo.

domingo, 25 de agosto de 2013

Investimento de Risco

Investir é empregar tempo ou dinheiro sem visar um resultado imediato, mas sim tendo em vista um benefício maior no futuro. Gasto imediato é consumo, seja para satisfazer uma necessidade essencial ou um desejo supérfluo. Boa parte não investe simplesmente porque não ganha nem para o essencial. Mas muitos não investem porque gastam tudo em consumo supérfluo. Entretanto, para investir é preciso ter tempo ou dinheiro sobrando. Ou seja, é preciso ser rico.

Rico é quem tem mais do que precisa. Não adianta ganhar muito e gastar tudo. Esse será pobre em breve. É preciso ganhar o suficiente, além do essencial e saber controlar o desejo. A carência mais frequente não é física, mas afetiva. Por isso o problema da sociedade não é tanto a escassez de recursos para satisfazer as necessidades de todos, mas a inflação dos desejos de alguns tantos. O segredo é precisar de pouco e investir a sobra. Quem age assim gera riqueza em sua vida em mais de um sentido. Esse é o verdadeiro rico. De tempo ou de dinheiro e, no mais das vezes, dos dois.

Aliás, riqueza aparente é o gasto. Tanto mais rico é considerado quanto mais supérfluo e suntuoso é o seu gasto. Na busca da riqueza aparente, muitos se endividam e empobrecem a sua vida em muitos sentidos além do financeiro.

Paralelamente, do lado do tempo, a produtividade aparente é a ocupação. O mais ocupado, apressado e estressado parece mais produtivo. Para se sentirem mais úteis, muitos se ocupam integralmente numa rotina estressante e também empobrecem a sua vida.

Mas guardar dinheiro só por guardar é a maior loucura. Assim como permanecer num ócio estúpido ou distraído. É preciso investir a sobra – visar uma vida mais rica no futuro. O problema é que o futuro é incerto. O medo da incerteza faz com que as pessoas se aferrem ao presente, a uma rotina de trabalho rápido e consumo supérfluo.

Uma coisa é investir em si, outra é investir no outro. Ao investir no outro, multiplicamos nossas capacidades e o investimento é alavancado. Entretanto, o risco é maior. Há três formas de investir no outro: o empréstimo, a associação e o investimento de risco.

Quando eu empresto eu invisto tempo ou dinheiro, mas espero um pagamento certo num futuro determinado. Em princípio o risco está só do lado do tomador e não do prestamista. Para este, o risco é baixo, mas há necessidade de confiança (crédito). O problema do empréstimo é que o ganho futuro é tão mais baixo quanto mais garantido.

Quando eu me associo eu invisto tempo ou dinheiro por um período indeterminado e ilimitado com uma expectativa de compartilhamento proporcional dos ganhos futuros. O ganho e o risco são compartilhados. O problema da associação é o controle sobre os critérios de decisão de proporcionalidade tanto dos ganhos quanto dos eventuais prejuízos. Como as associações se fazem, em princípio, para a vida toda, o grau de confiança é muito elevado, apesar da percepção de risco ser menor. E esse risco é maior para o minoritário, que, portanto, sempre buscará aumentar o seu grau de controle.

Quando eu faço um investimento de risco eu invisto tempo ou dinheiro por um período indeterminado, mas limitado. Além disso, necessariamente, assumo um papel subalterno ou minoritário e confio que o crescimento que proporcionarei ao outro será recompensado dentro do período estipulado. O problema do investimento de risco é... o risco, que só é limitado pelo tempo.

Ou seja, o investidor de risco entra num negócio pensando em ganhar (ou perder pouco) na saída. Em contraste, um sócio entra para ficar. Além disso, o investidor de risco tem mais interesse em crescimento do que em lucratividade. Ou seja, o investidor de risco privilegia o reinvestimento e a alavancagem, enquanto o sócio privilegia a lucratividade e a distribuição de dividendos.

Muitos confundem as três formas de investimento e no Brasil há uma tradicional aversão ao risco. Recém agora está se começando a investir em Bolsa. Mas, até a Bolsa, existem outros três níveis de investimento de risco: anjo, “venture” e “private equity”. Todos visam uma participação minoritária aportando níveis crescentes de investimento e todos, além do capital aportam também expertise e networking. Entretanto, com uma dedicação menor do que a de um sócio.

O investimento anjo ou capital semente financia empresas em estágio nascente com quantias que vão de R$10 mil a R$500 mil. A saída do investidor anjo se dá pela entrada do “venture capital” ou pela compra por um sócio estratégico. O “venture capital” visa empresas em fase de consolidação e crescimento acelerado, investindo de R$500 mil a R$5 milhões. Sua saída se dá pela entrada de fundos de “private equity” ou de um sócio estratégico. Os fundos de “private equity” aportam de R$10 milhões a R$100 milhões em empresas já consolidadas que tenham potencial e apetite de crescimento e sua saída se dá no IPO ou pela venda para um sócio estratégico.

domingo, 28 de julho de 2013

Cronos e Kairos

Os gregos tinham duas palavras para referir tempo: Cronos e Kairos. Cronos denotava o tempo quantitativo associado à medida do movimento, contado em segundos, minutos, horas, dias, meses, anos. Uma dimensão em que o presente é um instante sem duração que avança continuamente, devorando o futuro e deglutindo o passado. É o tempo que usamos na programação do dia-a-dia. Já Kairos tinha o significado mais sutil de "momento certo" ou "oportuno" e refere um tempo qualitativo, um momento de ação ou propício para agir, de maneira a alterar o destino.

Kairos não é contado em unidades de tempo, mas em feitos, e avança por eventos significativos. É o tempo das histórias que contamos. Kairos não é contínuo, mas se desdobra em janelas de oportunidade em que o destino é alterado por ação, por omissão ou por acidente.
A Índia antiga tinha as mesmas duas noções de tempo. O equivalente em sânscrito de Cronos é Kala. O nome hindu para Kairos é Ritu. Cronos e Kala se associam com a ideia de morte. Cronos era personificado pelos gregos como o deus Saturno ou Júpiter, que devorava seus filhos. Kala dá o nome à deusa Kali, que dançava sobre cadáveres com um cinto de caveiras e demandava sacrifícios humanos em seus rituais. Já Kairos era pintado pelos gregos como um jovem alado, que voava ou andava sempre correndo, com uma navalha na mão e que tinha um topete e a nuca careca. As asas significavam como os momentos Kairos eram tênues bem como agudos como a navalha, podendo ser aproveitados ou não, pender para um lado ou outro. O topete era para que aquele que o encontrasse o agarrasse de frente e a careca significava que aqueles por quem Kairos passou, por mais que queiram, não conseguirão pegá-lo por trás.

Viver em Cronos é viver na rotina dos hábitos definidos pelo relógio (a hora de acordar, de trabalhar, de comer, de dormir, de tomar banho) e pelo calendário (o dia do jogo, o dia da festa, do aniversário, as férias, o tempo de plantar e de colher). O redemoinho das engrenagens das rotinas sincronizadas nos suga para satisfazer a máquina de produção e consumo da sociedade moderna. Lutamos para entrar no redemoinho e nele ficamos contentes por merecer um Kairos padronizado sem grandes riscos e surpresas: nascer, brincar, estudar, formar-se, arrumar emprego, casar, ter filhos, construir casa, comprar carro, formar filhos, aposentar-se, brincar de novo, adoecer e morrer.
Vivemos em Cronos, mas somos Kairos. As realizações que nos orgulham e nos constituem, via de regra, fogem à rotina. Os infortúnios que nos afetam também.

Em 1985 um grupo de líderes religiosos negros da África do Sul redigiu o Manifesto Kairos em resposta ao endurecimento do Apartheid, que começava assim: “O tempo é agora. Chegou o momento da verdade.” O Manifesto evocava a ideia de um tempo maduro para a mudança no sentido do avanço ou do retrocesso, dependendo da ação ou da inação. Mas os momentos Kairos não precisam ser dramáticos, trágicos ou heroicos. Podem ser também pequenos momentos na vida de uma pessoa, vividos com plenitude ou em estado de fluxo. Aqueles momentos perfeitos que ficam para sempre na nossa lembrança.
Cronos e Kairos têm ritmos complementares. Se Cronos tarda a passar, Kairos se acelera. Os dias são longos, mas as crianças cresceram e se foram. As semanas de trabalho são intermináveis, mas chafurdamos na rotina para ganhar a vida e nem notamos como ela passou depressa, exceto pelas rugas e cabelos brancos – as marcas de Cronos.

Da mesma forma quando Kairos tem um ritmo intenso Cronos parece se estender. Como aconteceram coisas neste último ano: compramos a casa, iniciamos a empresa, o filho foi morar longe, o pai morreu! Parece que foi uma década!