terça-feira, 5 de junho de 2007
Moral ou Sobrevivência?
Do ponto de vista local e particular, a Lei da Selva é a verdade: "o mais forte (ou rápido) come o mais fraco (ou lento)". Ao seu lado, a Lei de Gerson se impõe: "eu antes". Na perspectiva individual, o egoísmo é um dado do real. Se não do animal, do gene. Quando se radicaliza na vertente de Darwin, o egoísmo se torna moral: utilitarismo. O gene que não pensa e opera segundo as leis da natureza produz moralidade e racionalidade no homem.
Leis da natureza? A perspectiva universal, o ponto de vista da eternidade (porque a realidade é eterna), inverte a verdade individual. Aqui impera a Lei Áurea - "não faz ao outro o que não queres que te façam" - e seu corolário, a Lei da Colheita: "colhes o que semeias". Quando o homem começa a plantar e pastorear começa a moral. Talvez por medo de outro mais forte, o forte não abate o fraco. Medo: moral de rebanho. Se se aprende a moral por medo e acata-se a lei por submissão ou prudência, pode-se depois compreendê-la através do conhecimento e adotá-la por opção. Aí, a moral do rebanho se torna uma ética indivídual e racional. Aí, a Lei Áurea encontra sua versão positiva: "faz ao outro o que queres que te façam". Uma ética de ação, e não uma moral de repressão. Chega-se ao ensinamento de Cristo: "ama ao outro como a ti mesmo". E, acrescente-se, não fica na intenção, demonstra esse amor por atos.
Na perspectiva da eternidade, também se inverte a métrica da valorização egoísta e imediatista. O eu, o aqui e o agora deixam de imperar. Na calma da apreciação, adquire-se a capacidade da transcendência: o todo vale mais do que a parte. Se é bom para mim e não é bom para a minha família, não é bom para mim. Se é bom para a minha família e não é bom para o meu povo, não é bom para a minha família. Se é bom para o meu povo e não é bom para a humanidade, não é bom para o meu povo. Chega-se à perspectiva ecológica: se é bom para a humanidade e não é bom para o planeta (Gaia?), não é bom para a humanidade.
Mas quem pode viver acima das nuvens? Quem tem calma para avaliar? O presente, cada vez mais instante, nos chama e nos prende na circunstância imediata. É nesta circunstância presente e local que se vive. Com urgência, mais do que calma, espicaçados por um sem número de demandas e oportunidade, encontros e desencontros. Neste mundo sem tempo para pensar, a lógica é local, a lei é a da selva e o valor maior é o eu. Será que o gene egoísta conseguirá sobreviver? Não percamos a esperança: depois que as idéias e o idealismo perderam a força, os baluartes da moral são defendidos pelos genes, e o utilitarismo resiste.
domingo, 3 de junho de 2007
Dinheiro, Poder e Amor
Violência: o forte impõe, e o fraco aceita (ou até propõe, por fraqueza) o desrespeito ao seu interesse. Nietzsche diria que isso dá exatamente a medida do valor ético (diferente do valor moral) de cada um. O fraco pode ser moral (por medo) mas não ético (por consciência do seu valor). Quem não vê valor em si mesmo, não se reconhece como árbitro legítimo dos seus valores e os buscará na opinião dos outros - os fortes, que se reconhecem como e se constituem em fonte de valor. Para Nietzsche o amor-próprio é a fonte de todo valor - e de toda força, o que para ele é a mesma coisa. Idealizado ou cínico, o poder se impõe pela força e se justifica pela sua eficácia, política boa é a que triunfa. O cinismo político de Maquiavel diz tudo: os fins justificam os meios, e o fim é a vitória. A moral da política não é a moral da virtude. A moral da política é a vitória. Injustiça pois, que seja: o ganho de um e a perda de outro é a própria afirmação do poder quando se constitui em valor.
E o amor? Como pode ser injusto se é absolutamente voluntário? Ora, o termo voluntário é empregado em dois sentidos. Num, designa o próprio agir (por oposição ao reagir): a escolha livre, consciente e responsável de um ato. No outro, vai mais além para designar a ação livre, consciente e responsável, sim, mas desinteressada ademais. Neste segundo sentido só é voluntária a ação que não visa o interesse próprio e o benefício imediato ou individual. O trabalho voluntário não pode ser remunerado. Dar sem esperar retribuição: injustiça, pois. Nada mais voluntário neste sentido do que o amor. Amor digo, não desejo. Nietzsche diria que só uma alma forte é capaz de um amor assim, totalmente independente e desinteressado. Poder-se-ia objetar, e com razão, que tal ato amoroso não é desprovido de interesse, que os interesses (valores) que o movem são de uma ordem maior, mas ainda individuais, têm sua fonte no próprio indivíduo (forte) que age e não no objeto. Amor digo de novo, não altruísmo. Só um eu forte para se libertar do peso do "caro eu", aquela fonte de engano das ilusões de ótica que privilegiam o aqui, o agora e o eu (narcísico), e simplesmente amar. Amor, a virtude mor, ou a essência de todas elas: o sentimento é tudo, a intenção basta, a conquista não é o objetivo. O poder é forte e conquista o que deseja, o que lhe falta. A virtude é boa e o amor é pleno, nada pede, nada quer, nada lhe falta. Em ética, virtude é tudo, poder não é nada.
Duas injustiças então, dizia eu: violência e amor. O desrespeito ao interesse do outro e o desrespeito ao interesse próprio (no sentido imediato). Nas trocas entre o poder violento e a virtude amorosa, o saldo pende para o primeiro. O saldo bancário, bem entendido. Talvez, para Nietzsche e Ayn Rand, para quem poder e valor se igualam e que vêm o egoísmo como fonte do bem, o valor da pessoa seria então esse saldo. Mas para Jesus, Spinoza e Diógenes, valor é ética, poder é outra coisa, e para eles, o egoísmo é a fonte de todo mal e de todo erro, e só o amor constrói, e o valor seria então o inverso do saldo bancário.
Onde a verdade? Você escolhe. No fim, uma questão de opinião e de gosto, pois qualquer raciocínio em termos de juízos de valor chega aonde partiu. Meu amigo está certo do seu ponto de vista, ele escolhe o poder como critério de valor. Meu amigo está errado do meu ponto de vista, eu escolho a virtude.
domingo, 20 de maio de 2007
Prazos
Mas poucas coisas têm um prazo fatal assim. As coisas mais importantes não têm prazo. Não há prazo para ser feliz, não há prazo para se realizar um sonho, não há prazo para mudar. Ora, a reação natural é deixar para depois tudo que não é imediato ou que não tem prazo. Ao natural, as pessoas se mobilizam mais pela possibilidade de perda do que pela afirmação de valor. Por isso, para fazer as coisas que não têm prazo fatal ou cujo prazo fatal é distante, cria-se um outro: o prazo comprometido. O que ocorre no prazo comprometido não é a perda de valor da ação, mas a perda de crédito do promitente, embora este prazo possa ser renegociado antecipadamente sem grande perda de crédito.
Um outro instante característico de uma ação é o momento em que sua necessidade nasce, quando nos comprometemos a fazê-la, porque nos foi solicitada ou por uma tomada de decisão. Chamo esse instante de surgimento da ação. No surgimento, o compromisso de fazer, para ser firme, deve ter um prazo comprometido, caso não tenha um prazo fatal.
Um erro comum (outra reação natural e pouco inteligente) é agendar a ação no prazo dado. Se lhe pedem algo para sexta-feira, anotar um lembrete na agenda na sexta-feira, não é uma boa prática. Deve-se agendar a ação no prazo de ataque com uma folga. O prazo de ataque não é a data em que se vai fazer a ação, mas aquele no qual se começará a avaliar e a priorizar o início da ação. Ao definir um prazo de ataque com uma folga suficiente a pessoa se despreocupa. Isto é, o prazo de ataque, no fundo significa a data até a qual se pode esquecer aquela ação. Colocando estes prazos numa linha de tempo, percebe-se que a folga, na verdade, se divide em duas: a inicial, entre o prazo de ataque e o prazo de início estimado; e a final, entre o prazo de fim estimado e o prazo comprometido (ou fatal).
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Surgimento..Ataque .Início ..Fim .Comprometido Fatal..............!________!......!________!
............Folga Inicial >>>>Folga Final
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....................Duração estimada
A Síndrome do FDP *
O perfil psicológico típico do fdp é o do enjeitado. Tem raiva do pai, vergonha da mãe e baixa auto-estima. É filho do erotismo, mais propenso à expressão do que à sublimação do instinto. Portanto, não tem apreço pela família como instituição e dificilmente será um pai devotado ou marido fiel, tendendo a reproduzir o seu perfil em uma nova geração de filhos bastardos.
Por que o Brasil e os EUA tiveram índices de desenvolvimento econômico tão distintos, tendo ambos a mesma idade e extensões territoriais semelhantes? Obviamente, a diferença é cultural. A culpa é dos portugueses. Sempre é.
Uma explicação corrente ressalta a diferença de atitude em relação à riqueza entre a ética católica dos ibéricos e a ética protestante do colono americano. Para o catolicismo "é mais fácil um camelo passar pelo buraco da agulha do que um rico entrar no reino dos céus". Já, a ética protestante considera sinal de virtude a riqueza oriunda do trabalho. Creio, entretanto, que a síndrome do fdp se constitui em distinção ainda mais fundamental, que nunca foi devidamente ressaltada. Mais do que a Igreja, a família é a célula mater para a geração e reprodução dos valores morais e do caráter de um povo.
A família é uma criação eminentemente feminina. Para passar adiante os seus genes, a mulher conta com poucos óvulos, relativamente aos milhões de espermatozóides masculinos. É crucial para a fêmea que a prole sobreviva em um ambiente hostil e a família (a garantia do compromisso paterno) é a mais poderosa arma nesse sentido. Já o homem produz espermatozóides suficientes para colonizar um continente sozinho. Se não lhe for cobrado nenhum compromisso posterior, ele pode até fazê-lo apenas para satisfação do desejo momentâneo.
Nos EUA, a colonização foi feita por famílias. Famintas, degredadas sociais pela falta de perspectivas no velho continente, mas, ainda assim, famílias. Onde a figura da mãe era dominante, jogando um papel agregador e motivador para a construção de um novo lar definitivo. Uma visão de futuro: a recuperação da dignidade familiar na nova terra dependia da riqueza que se pudesse construir pelo trabalho. A ética protestante é um elemento facilitador, sem dúvida.
Ora, a colonização do Brasil, assim como a da Austrália, diferentemente da americana, foi essencialmente masculina. Aventureiros e mandatários degredados que, distantes dos vínculos afetivos, familiares e sociais em que foram criados, construíram novos vínculos, mais por necessidade e interesse do que por escolha. O português "se unia" às índias (assim no plural) "em pecado" e as enjeitava como símbolo deste pecado, bem como aos frutos dessa união eminentemente carnal, consumada sem respeito pela parceira. Nessa família mestiça, o pai era a figura dominante, dada a superioridade cultural. Um pai com remorso, saudoso, aventureiro, temporário, voltado para o passado, para a terra à qual voltaria com as burras cheias e a alma vazia. Um pai cuja visão de futuro era a de um retorno ao passado. Uma mãe criança, só vivendo o presente, inocente e tragicamente sem expectativa, sem futuro. Essa preponderância do macho sem vínculos familiares, mais tarde, se reproduz na relação com a escrava negra. O erotismo se sobrepõe ao respeito e ao compromisso na noção de amor brasileira, com profundos reflexos na família como instituição.
* Texto originalmente publicado no Baguete em 22/09/2003 e posteriormente no livro "O Entregador de Sonhos"
Radical de Centro *
Falar esquerda e direita condiciona linearidade em uma única dimensão. O senso comum considera o liberal à esquerda do conservador e à direita do socialista, e o anarquista ainda mais à esquerda. Entretanto, o pensamento conservador tem afinidades com o socialista pela ênfase na ordem e na segurança, enquanto o pensamento liberal converge com o anarquista na valorização da liberdade individual como princípio máximo e na desconfiança em relação ao Estado.
Entendo que a escolha entre esquerda e direita se dá em vários eixos, que representam conceitos opostos. Para isso desenvolvi um ideologímetro que marca a posição intermediária entre estes conceitos. Marque no ideologímetro abaixo onde você se situa:
Comunidade.. _____________!_____________ Indivíduo
Igualdade... _____________!_____________ Liberdade
Segurança... _____________!_____________ Risco
Planificação _____________!_____________ Competição
Uniformidade _____________!_____________ Diversidade
Estabilidade _____________!_____________ Mudança
Natureza.... _____________!_____________ Tecnologia
Ideológica e politicamente me declaro um radical de centro com tendências para a direita. Muitos pensam que é blague, pois acham que radicalismo pressupõe extremismo. Mas, radical é quem vai à raiz do problema, com disposição e disciplina para refletir e analisar todos os lados da questão, suspendendo o julgamento passional interessado.
O "radical" extremado, ao contrário, adota uma posição afetiva, baseada em interesses e não em análise. O "radical" é do contra, se opõe ao que considera diferente, por antipatia baseada mais em sentimento e interesse do que em raciocínio. O "radical" não tem lógica, tem convicção. Certeza visceral, não cerebral. A raiz do conflito político está na paixão cega de quem defende o seu lado, no qual supõe toda a virtude, e joga no outro todo o vício. Isso se chama maniqueísmo. Esta paixão é veemente e o "radical" é veemente na defesa do seu interesse, sempre racionalizado como interesse comum ou verdade definitiva.
Aliás, a veemência é a única característica do "radical" extremista que procuro manter. Defendo veementemente a liberdade de idéias, o pensamento livre e o mais desinteressado possível, o direito que todos têm de defender interesses respeitando o direito dos outros de fazer o mesmo.
O interesse individual deve se subordinar ao interesse coletivo. Mas não existe “o” interesse coletivo, “o” bem comum. O interesse coletivo surge da negociação dos interesses individuais. Não se trata de defender fins, mas sim de assegurar os meios para que essa negociação se efetue. A isso se chama estado de direito.
Platão errou ao jogar a ética para um plano metafísico afirmando a existência de um Bem absoluto e inventando a praga do idealismo. Ética não é coisa de deuses desapegados, é coisa de homens interessados. Todos têm interesses próprios e a sua defesa é legítima. Não é uma questão de fins, danem-se os fins. Os meios é que são éticos. Se o mal existe, ele se chama violência. O que há de terrível na sentença de Maquiavel de que os fins justificam os meios é que ela sanciona a violência.
O uso da força permite ao forte impor suas idéias e manter o poder. Pode-se pedir ao mais forte que não use a sua força? Sim, mas isso é antinatural. O forte só deixará de usar a sua força por temer a união dos fracos. Ou por aceitar o imperativo categórico de Kant. Seja por medo ou pudor, é na repressão do uso da força pelo forte que se baseia o estado de direito.
Mas isso pode facilmente descambar para a ditadura dos fracos – a ditadura do rebanho que, de fato, é sempre uma ditadura de pastores disfarçada. Foi essa a revolução dos séculos XIX e XX, comandada por Nietzsche e Freud: a reabilitação da potência do indivíduo, o uso consciente das forças instintivas do indivíduo como critério maior de verdade e valor.
Para o socialista todos os homens são iguais, mas, quando estão no poder, uns acabam sendo mais iguais do que outros. Os liberais defendem a livre circulação de pessoas e mercadorias, mas de preferência num sentido só – do centro (de poder) para a periferia. Socialismo e liberalismo são utopias – coisas de idealistas. Idealistas querem o poder para colocar em prática suas idéias, o que é um interesse próprio. Defender o interesse próprio é legítimo, desde que se reconheça ao outro o mesmo direito. Por isso, simpatizo um pouco mais com os liberais, embora aqui também se encontrem convictos. O idealista acha que sabe o que é melhor para os outros, pois está do lado da verdade absoluta. Eu tenho muito receio disso. Aliás, me oponho radicalmente a isso.
* Este texto é uma revisão de artigo originalmente publicado no livro "O Entregador de Sonhos"